O FEITIO: TRABALHO, CUIDADO E DEVOÇÃO

Preparar a Ayahuasca que utilizamos em nossas cerimônias é assumir responsabilidade por sua origem, seu preparo e sua destinação. No Flor de Lótus, o Feitio reúne trabalho, aprendizado, disciplina e espiritualidade em uma prática construída ao longo dos anos. Conhecer esse caminho é compreender por que ele ocupa um lugar tão profundo em nossa relação com o sacramento.

Do cultivo ao sacramento

Para nós, o Feitio não é apenas o processo pelo qual preparamos a Ayahuasca. É uma prática de cuidado, responsabilidade e dedicação que começa muito antes do fogo ser aceso.

Começa na terra.

No plantio, no manejo e no tempo necessário para que Jagube e Chacrona cresçam. Continua na colheita, na preparação das plantas e no trabalho coletivo que acompanha cada etapa até que o sacramento esteja pronto para ser utilizado em nossas cerimônias.

Participar desse ciclo nos aproxima de algo essencial em nossa prática: a Ayahuasca não chega pronta até nós. Ela é fruto de tempo, natureza, trabalho humano e compromisso espiritual.

Nossa relação com o cultivo começou a ganhar uma nova dimensão em 2016, quando o Instituto passou a desenvolver suas atividades na Chácara Jardim Dourado e plantamos nossas primeiras mudas de Jagube e Chacrona.

Desde então, aprendemos que cultivar exige sobretudo paciência. Há o tempo de plantar, o tempo de crescer, o tempo de manejar e o tempo de colher.

Acompanhamos nossas plantas ao longo dos anos buscando compreender suas necessidades e respeitar seus ciclos. O cultivo próprio tornou-se parte importante de nossa relação com o sacramento e de nosso compromisso com uma produção cada vez mais responsável e sustentável.

Cuidar da Ayahuasca começa, para nós, cuidando da terra da qual ela nasce.

A Paciência da Terra e a Alquimia da Alma

A escolha de plantar, cuidar, aguardar o tempo da floresta, colher, limpar e acompanhar cada estágio do cozimento — da redução à apuração final — é uma jornada longa que exige entrega e uma equipe em profunda sintonia. No Lótus Xamanismo, compreendemos que o objetivo vai muito além de produzir uma medicina de força; o processo em si é uma oportunidade intensa de autoconhecimento, superação de limites e prática espiritual ativa.

A maneira como a força se manifesta durante o feitio, as reflexões silenciosas e as compreensões profundas que emergem do vapor das panelas são especificidades únicas deste rito. É uma alquimia que transforma o feitor enquanto ele transforma a planta. Como tudo o que é sagrado, não há palavras que alcancem sua totalidade: é preciso vivenciar para saber.

Nossa estrutura para vivenciar este aprendizado é fundamentada na simplicidade — uma escolha que é parte essencial da experiência que oferecemos. Como aprendemos com os grandes professores deste caminho: existe uma grandeza na simplicidade. Ao longo dos anos, temos investido em infraestrutura, aprimorando cada etapa do feitio para garantir a máxima segurança e pureza da nossa medicina.

Hoje, contamos com um forno adequado e sistemas de engenharia própria, como o braço articulado e a bica de segurança, que nos permitem manusear as panelas com o respeito e o cuidado que o fogo sagrado exige. Sabemos que ainda há muito a realizar, e nossa força de vontade é o motor que transforma o tempo em progresso. Atualmente, o feitio é um ritual reservado à nossa equipe e convidados, mas o fruto desse trabalho é dedicado a todos. Se você encontrou na Ayahuasca o seu caminho, desejamos que possa, um dia, vivenciar a profundidade desta experiência.

UM CONHECIMENTO CONSTRUÍDO AO LONGO DOS ANOS

Aprender a realizar nossos próprios Feitios foi um processo gradual. Visitamos casas de diferentes linhas, acompanhamos outras formas de trabalho e buscamos aprender com pessoas que acumulavam experiência no cultivo e no preparo da Ayahuasca.

Em 2021, essa caminhada nos levou ao Acre, onde tivemos a oportunidade de aprofundar nossos conhecimentos com pessoas ligadas à tradição do Santo Daime e com feitores da região que generosamente compartilharam conosco parte de sua experiência. Cada encontro acrescentou algo à nossa compreensão.

Voltamos para nossa casa, realizamos muitos Feitios, observamos, aprendemos com os resultados e fomos aperfeiçoando nossa própria maneira de trabalhar.

Com o tempo, desenvolvemos uma formulação própria, adequada às plantas que cultivamos e à Ayahuasca que desejamos oferecer dentro de nossa prática religiosa.

Reconhecemos aqueles que contribuíram para nosso aprendizado sem pretender reproduzir integralmente nenhuma tradição específica.

Recebemos conhecimento. Praticamos. E, com o tempo, encontramos nossa própria forma de cuidar do sacramento.

O FEITIO COMO PRÁTICA ESPIRITUAL

Um Feitio reúne trabalho físico, atenção, disciplina e convivência. São muitas horas compartilhadas entre pessoas que assumem conjuntamente a responsabilidade por aquilo que será servido posteriormente em nossas cerimônias.

Há momentos de esforço e outros de espera. Momentos de conversa e momentos de silêncio. Há o cuidado com as plantas, com o fogo, com os equipamentos, com o espaço e, principalmente, com as pessoas que trabalham juntas.

Por isso, compreendemos o Feitio também como uma prática espiritual. Não porque cada gesto precise receber um significado extraordinário, mas porque existe algo profundamente formador em dedicar tempo e esforço a um trabalho que não pertence apenas a quem o realiza.

Enquanto preparamos o sacramento que será compartilhado com nossa comunidade, somos também convidados a observar nossa própria maneira de trabalhar, cooperar, esperar, servir e assumir responsabilidades. Nesse sentido, gostamos de dizer que: enquanto realizamos o Feitio, o Feitio também acontece em nós.

Ao longo dos anos, também fomos aperfeiçoando a estrutura utilizada na produção. Nossa escolha continua sendo pela simplicidade, mas simplicidade não significa improvisação.

Investimos em equipamentos e soluções que tornam o trabalho mais organizado e seguro, especialmente nas etapas que envolvem fogo, calor, peso e movimentação dos recipientes utilizados durante o Feitio.

A experiência nos ensinou que respeito pelo sacramento também se manifesta na qualidade do cuidado colocado em seu preparo. Por isso, buscamos permanentemente aperfeiçoar nossos processos sem transformar o Feitio em uma atividade industrial.

Ele continua sendo aquilo que sempre reconhecemos como essencialmente religioso: um trabalho realizado por pessoas, para uma comunidade, dentro de uma relação de responsabilidade com a Ayahuasca.

O SACRAMENTO NÃO É MERCADORIA

A Ayahuasca produzida e mantida pelo Instituto é destinada à finalidade religiosa. Não compreendemos o sacramento como mercadoria, e sua produção não é orientada pela obtenção de lucro.

Produzir Ayahuasca exige recursos: cultivo, manutenção, equipamentos, água, energia, transporte, infraestrutura e muitas horas de trabalho. Esses custos existem e fazem parte da responsabilidade coletiva de sustentar as atividades da instituição.

Mas existe uma diferença essencial entre custear aquilo que é necessário para manter um trabalho religioso e transformar o sacramento em produto comercial.

Essa distinção faz parte de nossa ética e também dos princípios que orientam o uso religioso responsável da Ayahuasca no Brasil. Buscamos, por isso, ampliar continuamente nossa capacidade de cultivo e nossa sustentabilidade, cuidando para que a relação com o sacramento permaneça coerente com a finalidade espiritual que lhe atribuímos.

Poder participar do caminho que começa no cultivo das plantas e termina na consagração da Ayahuasca durante uma cerimônia mudou profundamente nossa relação com o sacramento.

Conhecemos a terra onde parte importante de nossas plantas cresce. Participamos do cuidado, colhemos. preparamos. realizamos o Feitio, armazenamos e, finalmente, servimos. Cada uma dessas etapas carrega uma responsabilidade diferente, mas todas fazem parte de um mesmo compromisso.

Talvez seja essa uma das maiores lições que o Feitio nos oferece: aquilo que consideramos sagrado também precisa ser cuidado com as mãos. Oração e trabalho não estão separados.

A espiritualidade se manifesta também na paciência de esperar uma planta crescer, na disposição para realizar uma tarefa difícil, no cuidado com quem trabalha ao nosso lado e na responsabilidade de saber que aquilo que estamos preparando será posteriormente confiado a outras pessoas.

É por isso que o Feitio ocupa um lugar tão especial em nossa caminhada. Da terra ao sacramento, cuidamos daquilo que um dia também cuidará de nossas cerimônias.